A separação dos amantes
Autor: Marcos Paulo
http://marcopablo9.blogspot.com/
http://recantodasletras.uol.com.br/autores/marcopablo
_________________ 2011 ____________________________
Separação dos amantes é nome de um livro de um autor austríaco psicanalítico chamado Igor Caruso(1914 – 1981), um ótimo livro, da década de 1970.
A palavra amante colocada no livro traz a ideia de amor clandestino, amor fora das convenções sociais, melhor expressando: amantes seriam aqueles que vivem situações triangulares. Ou seja, uma mulher casada se apaixona por um homem, ou um homem casado se apaixona por uma mulher. Assim sendo, os amantes sempre se encontram em situações objetivas de proibição.
O livro mostra que naquela época(anos 60 e 70), e pela experiência clinica do Dr. Caruso, os amantes sempre se separavam. Sempre no final, os amantes se separavam tristemente, mesmo tremendamente apaixonados, sentindo uma dor profunda de não querer, mas contudo as convenções sociais, a família, os filhos, a moral rígida, o preconceito, as diferenças de idade, questão de raça, a própria segurança do casamento impossibilitavam que os amantes prosseguissem na tentativa de fazerem prosperarem aquele relacionamento. Sempre a pretexto de estarem ligadas a compromissos previamente estabelecidos, faziam prevalecer as ligações tradicionais das instituições, ligações essas sempre duvidosas e de qualidades inferiores, e depois de tais experiências mais frustrantes ainda.
Então, estes impedimentos externos, determinavam o fim das histórias das relações amorosas, e estes amantes não tinham a coragem de assumirem os seus relacionamentos.
Bom, então o autor do livro, Igor Caruso, mostra estes impedimentos externos, padrões de sua época. Estes padrões da época do escritor eram rígidos e carregavam inexoravelmente, quase sempre, de acordo com suas experiências clínicas, o fim da relação dos amantes.
Caruso mostra que, quase sempre, estas relações dos amantes estavam carregadas de intensa paixão. Os amantes são aqueles que possuem muitos pontos em comum, os amantes são pessoas que têm afinidades. Diz ele: “nas histórias de amor, as afinidades predominam sobre as diferenças”. De fato, há um encaixe quase perfeito entre os amantes.
A questão que eu gostaria de colocar, diante do que o autor apresentou, é a seguinte questionamento: o que se percebe é que, nos tempos atuais, neste século XXI, diante da mitigação da rigidez da instituição do casamento, e dos padrões sociais em geral terem se flexibilizados, e estes impedimentos externos que Caruso coloca se reduziram quase a zero; e mesmo assim, por que então os amantes continuam se separando? Ou seja, o fato ainda se repete, mesmo tendo os impedimentos externos sido quase por completo deixados de serem empecilhos para os amantes. Veja hoje como o divorcio se tornou mais fácil, e o número grande de sua ocorrência em nossa sociedade. Contudo, repito, os casais amantes mesmo assim, no final, terminam se separando. Basta observar na prática o que eu estou dizendo.
Então, no meu ver, a tese provável que lanço para explicar a razão de ainda nos tempos atuais os amantes terminam se separando é devido a fatores de ordem interna aos indivíduos. Para mim, a ideia de Caruso que os impedimentos externos parecem ser a causa dos amantes se separarem, não corresponde à realidade. Compreendo a ideia de Caruso, se levarmos em conta que, em sua época, de fato, tudo indicava que os impedimentos externos seria os fatores que atrapalhavam. Porém, no momento atual, sua tese não encontra mais sentido. Ou melhor, posso dizer que sua tese não explicou realmente o que de fato se constituía a causa básica da separação dos amantes. No meu ver, os impedimentos não são de ordem externa, mas de ordem interna nos indivíduos.
O primeiro ponto que penso ser de ordem interna é o medo da perda da individualidade. É sabido de todos nós que a experiência de uma intensa paixão implica muitas das vezes na perda da própria individualidade, o outro passa a ser alguém do qual a nossa vida passa a ser indiretamente controlada, em virtude desse sentimento. Nesse ponto, acho interessante o seguinte: este medo ele é proporcional à intensidade dos sentimentos. Quando a paixão é fraca e o amor é mixuruca, o medo da perda da individualidade é muito menor. Ele vai implicar numa aliança pobre, e portanto, uma aliança pobre em termos de intensidade não vai pôr em risco a minha individualidade. Muitos dos casais que vejo, talvez em torno de 90% - sem muita certeza, mas baseado na amostra que tenho em mente, tem a seguinte característica: o outro é composto de 50% de qualidades e 50% de defeitos. Defeitos estes, não muito de ordem moral, mas defeitos que significa qualidades que o outro tem que não combina comigo. E se prestarmos atenção, a maioria dos relacionamentos que acabam em casamento são assim. Por exemplo, eu quero uma mulher com certas qualidades para que eu possa acha graça nela, possa me sentir atraído por ela. E com uma certa quantidade de defeitos para que eu não fique excessivamente grudado nela. Assim preciso não só de suas qualidades como também de seus defeitos, para que eu mantenha certa proximidade, e ao mesmo tempo, certa distância e independência. Portanto, quando se encontra uma pessoa que se mostre em perfeita sintonia, temos o medo da perda de nossa individualidade, pois uma das características da paixão é provocação disso.
Desta forma, não há como deixar de concluir que nos casamentos atuais têm como característica uma conjugação de defeitos e qualidades. E paixão entre os amantes se caracterizam por afinidades máximas. Para mim, diante desta conclusão, paixão se definiria como Paixão = amor + medo. O que faz bater o coração não é amor, mas o medo – bate de medo!
Uma segunda causa de ordem interna, penso ser o medo de sofrer advindo da possibilidade do rompimento desse relacionamento. Todo elo proveniente de qualquer relacionamento humano é passível de ruptura, e quando este elo está envolto de uma intensa paixão, o medo do potencial de ruptura, e daí o sofrimento, se constitui em uma das causas de impedimento interno que fazem com que os amantes não prossigam na relação amorosa. E no meu ver, ocorre muito isto, com pessoas narcisistas, ou seja, pessoas imaturas que preferem apenas serem amadas, mas não querem de fato amar, pois evitam o amor para se defenderem do risco de amarem e sofrerem, e isto, creio eu, devido há um mau desenvolvimento da personalidade. São pessoas que lidam muito mal com a frustração e o sofrimento, e por isso evitam bons relacionamentos. Embora sintam a incompletude e no âmago querem, porém acham que esse negócio de amor intenso ou paixão é um bicho muito perigoso e querem estar longe dele. Só que para resolver essa dualidade entre a vontade e o medo, estas pessoas preferem mais serem amadas que se verem amando.
Uma terceira causa, é medo da felicidade. Parece ser engraçado dizer felicidade dar medo. Porque o que todo mundo mais quer neste mundo é ser feliz. Mais acontece é que quando tudo vai muito bem, parece que um raio está na iminência de cair em nossas cabeças a qualquer momento. Não há nada mais capaz de provocar medo do que a felicidade sentimental. Quanto mais as pessoas numa relação amorosa se encaixam e se sentem felizes, maior é o medo de que um raio vai cair nas cabeças, e que vai estragar tudo. É a sensação que a qualquer momento uma tragédia pode acontecer. E essa sensação de tragédia é tão ruim, que muitos, só para se livrarem dessa sensação horrorosa, abrem mão daquela felicidade embutida na relação dos amantes. Esse medo da felicidade é universal, e está na raiz do pensamento supersticioso, se dirigindo em vários sentidos. Exemplos práticos, estar nas atitudes de bater na madeira para afastar algo de ruim... ou aversão ao número 13.
Então, concluindo minha análise, para mim o pensamento de Igor Caruso, em seu livro, a separação dos amantes, as causas de impedimento externo (fatores sócias de preconceito, instituições sociais como família, casamento, diferenças de idade, ou raciais etc.) que ele apresenta não corresponderam à realidade, uma vez que pelo decorrer do tempo, e pelas mudanças sociais operadas, estes fatores externos perderam muito de sua força, mostrando que são os fatores de ordem interna que realmente fazem ou provocam a separação dos amantes.
As pessoas devem ariscar. A felicidade não mata. Se for pra viver infeliz ou não contente ou não como poderia ser, mas podendo – acho que não se vale a pena viver a vida assim. Acho que se tem que enfrentar mais corajosamente esse medo. Mas para isso, é preciso que a pessoa se conheça como uma pessoa madura o suficiente para reconhecer sua individualidade.
E como saber que mesmo numa relação de paixão de intensa atração e felicidade não perderei minha individualidade? Bom, penso que o diagnóstico é fácil de demonstrar. Quem pode viver bem sozinho, está em condições de viver bem relações amorosas de boa qualidade. Até porque, quem pode viver bem sozinho, não vai querer relações de má qualidade.
Há três estados civis: mal casado, bem casado e solteiro. O mal casado está casado e suporta tudo, porque não aguenta viver sozinho. Este não tem a menor condição de ficar sozinho. Já o solteiro que encontrou certa harmonia em si mesmo, que adquiriu certa independência emocional, que se constituiu e se estabeleceu bem consigo mesmo, esta pessoa tem menos medo de o amor carregado de grande intensidade possa ofender sua individualidade, até porque sua individualidade já se estabeleceu. E nesses casos, de fato, se pensarmos que nessas relações em que há grandes afinidades, a individualidade em nada sai prejudicada, vez que é muita mais difícil se amoldar a determinadas características opostas ou muito diferentes das nossas, do que com pessoas que possuem pontos em comum, enfim afinidades.
FIM
![[Seja um mantenedor]](http://www.caiofabio.net/newsletter/banner_cadvvtv.jpg)

Oi Marcao!!!!!
ResponderExcluirO bom filho à casa torna!! rsrsrs
Feliz 2011, com muita paz e saúde!!!
Fiquei interessada pelo livro do Caruso, nao conhecia mas vou dar uma vasculhada!!
Beijo grande!!!!!!!
Olá irmão interessante e reflexivo seu texto..um assunto polêmico não é verdade?Talve o estar solteiro seja em determinado momento uma melhor opção...quem sabe?Rrs
ResponderExcluirSerá uma alegria sua visita ao meu blogue..
http://nairmorbeck.blogspot.com/
Shalom